Wednesday, March 21, 2012

Fernando Rosas em Braga: crise actual ameaça democracia




O historiador Fernando Rosas firmou, em Braga, que “a crise actual começa a pôr em causa a democracia”. Este professor falava sexta-feira à noite no Colégio D. Diogo de Sousa, durante um colóquio sobre os quatro factores da durabilidade do Estado Novo, numa iniciativa do departamento de história desta escola católica.

Perante um auditório cheio, Fernando Rosas esmiuçou os quatro factores que contribuíram para que o regime de Salazar tivesse durado 48 anos, marcado pela “arte de saber durar”.

O primeiro foi “manter as Forças Armadas, quanto ao essencial, unidas sob a tutela do regime”, uma vez que elas são a “espinha dorsal de violência do Estado não legitimado pela força do voto”.

Em 1918, a ditadura era um “caldeirão”, com a entrada de Salazar sem apoios militares mas a congregar as "várias direitas políticas e dos interesses”.

Em 1932, os generais deixam Salazar ser primeiro ministro em troca de manter o ministério da Defesa e a modernização das Forças Armadas. Em 1937 aproveita divisões entre militares e chama a si a Defesa, com o capitão Santos Costa que se mantém no poder até 1958.

Durante este período executa reformas militares de modo a que os jovens oficiais assumam o comando, “politizando os comandos em favor do regime”.

As FA estão com o regime e Salazar resiste em 1945, aguentando a primeira crise. A segunda crise surge com Humberto Delgado, o mais jovem general das FA, produzido nas escolas da Nato. Uma onde de esperança rodeia Humberto Delgado mas o comandos guardam fidelidade a Salazar, em troca da cabeça de Santos Costa. Salazar cede e aceita Botelho Moniz como ministro da Defesa, mesmo sabendo que ele prepara o golpe que se dá em 1961.



GENERAIS
INCAPAZES
DE DERRUBAR
SALAZAR

Foi um grande aperto para Salazar que demite todas as chefias pela rádio", invocando a necessidade de acorrer a Angola.

A elite do regime “não quer correr riscos económicos, sociais e políticos” e permite a Salazar criar um comando fiel até 1974 (para toda a guerra colonial).

Como os “generais nunca foram capazes de derrubar Salazar, são os oficiais que fazem a guerra no terreno” que vão derrubar o regime.

O segundo factor de durabilidade é a aliança com a Igreja Católica em que o Estado “usa a Igreja como instrumento legitimador do regime” – denuncia Fernando Rosas, lembrando que a “relação não foi fácil”.

As negociações para a Concordata “duraram muitos anos e foram duríssimas” porque Salazar não queria ceder à Igreja a “proibição do divórcio” mas era um acordo importante para segurar a direita republicana, dentro das Forças Armadas.

À Igreja só devolveu os imóveis sem utilidade pública, as igrejas, em trocas de privilégios fiscais e escolas. No entanto, a igreja rural defende o carácter providencial do regime.

Salazar começa a desconfiar da Acção Católica, embrião de um partido democrata cristão. O receio de Salazar cresce quando o bispo do Porto exige o direito dos católicos a organizarem-se politicamente.

O terceiro factor foi a unidade das várias direitas num partido único, criado pelo Ministério do Interior, onde reunia integralistas, republicanos, fascistas e tecnocratas em torno de Salazar.

Até à II Guerra Mundial apenas existiu lista única, mas mesmo esta é passada a pente fino pelo próprio Salazar para que a Assembleia Nacional representasse as várias sensibilidades sem questionar o chefe e os valores do regime.

O quatro factor foi a repressão, preventiva e mais eficaz e punitiva, para os infractores, que eram uma minoria como “são sempre”, através de um aparelho de justiça política com polícia, tribunais e prisões.



TRINTA E CINCO MIL
PRISIONEIROS POLÍTICOS

Entre 1926 e 1974 devem ter sido uns 35 mil os prisioneiros políticos” – assegura Fernando Rosa, destacando os períodos da Guerra Civil de Espanha e o rescaldo da campanha de Humberto Delgado. A repressão preventiva era exercida pela propaganda, censura, escola com livro único, canto coral, controlo dos lazeres (através da Mocidade Portuguesa), das corporações e das mulheres, da FNAT e das Casas do Povo.

Esta repressão preventiva fazia uma “economia do terror e tornava a violência desnecessária. Foi eficaz e sentimo-la ainda hoje”. Fernando Rosas apontou o fado – criticado e depois sagrado — como exemplo do que Salazar fez ao Benfica: “colou-se aos êxitos internacionais do clube para fazer política interna e sobretudo externa".

Tuesday, January 3, 2012

De Guimarães a Braga: “tu fazes parte”. E nós?




Uma das mais bonitas surpresas que os vimaranenses podiam ter feito aos bracarenses está à vista de todos: um cartaz espalhado pelas avenidas principais da Roma Portuguesa com um coração estilizado cheio de gente dentro — a simbolizar a Capital Europeia da Cultura — a convidar os bracarenses — que celebram a Capital Europeia da Juventude, onde se declara: “tu fazes parte”.

Este convite “Tu fazes parte” que Guimarães dirige a Braga constitui o primeiro passo para um novo paradigma — ai que palavra tão na moda! — nas relações entre as duas principais cidades do distrito de Braga.

Na minha modesta opinião esta é a primeira grande celebração da Capital Europeia da Cultura, mesmo contra a corrente de uma certa opinião bacoca e parola, de modo a que os habitantes de um e outro concelho acabem, de uma vez por todas, com essa conversa bafienta e enterrem esse linguajar subdesenvolvido.

No tempo em que se inicia um novo acordo ortográfico, era bom bom que as duas cidades celebrassem todos os dias um novo acordo de linguagem e de sentimentos que apenas traz vantagens para as duas cidades e para os dois povos.

Se o ano que agora se iniciou, coloca as duas cidades sob os olhares dos europeus, isso deve-se à cultura, ao património, à juventude, não ao futebol.

É tempo da gíria da bola — sem qualquer estatuto europeu e derrotada pela maioria— deixar de alimentar rivalidades que não elevam os níveis das duas cidades ao patamar a que agora — por força das suas autarquias, do seu passado monumental, das suas associações, dos seus criadores de artes e dos seus jovens — foram justamente classificadas.

A gíria divide, separa, destrói, aniquila: contraria coração da CEC e destrói o símbolo dinâmico e apontado ao futuro da CEJ. Nem Guimarães nem Braga merecem que a minoria do jargão se sobreponha às grandes celebrações das duas cidades.

Braga responde com um desafio aos jovens a lutar pelas verdadeiras condições do seu desenvolvimento, no acesso ao mercado de trabalho e na realização dos sonhos. Também os jovens de Guimarães fazem parte e já foram convidados, ao longo de uma maratona que percorreu todos os concelhos do distrito.

Braga e Guimarães apontam o dedo adultos, detentores da gíria que nos embruteceram ao longo de décadas, negaram aos jovens os sonhos e os mantiveram anestesiados com jargões e uma vida sem valores.

O convite “Tu fazes parte” constitui é um desafio para despertarmos da conformidade ou do sono da aceitação acriteriosa da sociedade vazia e mesquinha, porque só assim pode ser mais humana, livre, verdadeira, justa, criativa, fraterna.

Que a cultura, lá, e a juventude, cá, nos façam sair a todos deste torpor que nos engaiola na mediocridade sem darmos conta da nulidade que somos quando nos limitamos a ser menos que macacos de imitação.

Este cartaz tropeça traduz uma das frases mais bonitas que me atropelaram ao longo da vida: não conseguimos segurar uma vela para iluminar o caminho de outra pessoa, sem clarearmos o nosso próprio.

A frase pertence ao médico americano Orison Swett Marden (1850 - 1924) segundo o qual "uma vela nada perde quando, com sua chama, acende uma outra que está apagada”, como se pode ler no seu livro How to get what you want (Como realizar aquilo que desejas).

A voz dos indignados ou um grito de Deus!

Há pequenos sinais de que o mundo está a mudar. Em Harvard, um grupo de 70 estudantes saiu da sala de aula de Economia base, para denunciar que o curso "possui uma limitada visão da economia que perpetua sistemas problemáticos e ineficiente de desigualdade económica no nosso sociedade de hoje.

Contrariando a opacidade e o silenciamento imposto por parte dos media, vão surgindo na internet tomadas de posição acerca do alcance e fundamento que os movimentos dos "indignados" estão a ter em muitas cidades do mundo, com particular destaque para a contestação que se mantém em Wall Street, um lugar altamente simbólico do sistema financeiro mundial.

O Movimento Ocupar Wall Street (OWS) pode ser visto como dando um grande impulso para a reforma das Finanças.
Inspirado pela primavera árabe e manifestação dos indignados "em Madrid, OWS começou em 17 de setembro de 2011 perto da Wall Street, símbolo do mundo financeiro.

Ele mostra a democracia participativa em acção. Começou despercebido com a escassa cobertura dos media, mas rapidamente OWS tinha se espalhado para 951 cidades em 82 países. Não tinha a intenção de se limitar aos EUA ou Finanças, mas para chamar a atenção para a crise mundial. É um grito de justiça económica, responsabilidade, democracia e dignidade humana. Para os cristãos, isso podia ser visto como um grito de Deus — como escreve Antonella Ferrucci, no Economy of communion.

Wall Street foi escolhida como símbolo de protesto, mas é preciso revisitar a crise financeira em 2008, quando o governo dos EUA socorreu os bancos em quase colapso devido à sua acção irresponsável, muitas vezes sem ética financeira, alimentada pela ganância.

O mercado mostrou-se ineficiente, imperfeito e irracional. Para evitar colapso financeiro, o governo dos EUA injectou neles 700 mil milhões de dólares.
O desemprego continuou a subir. Isso foi visto pelo cidadão como a privatização dos ganhos e socialização das perdas.
Com o sector bancário recuperado, os banqueiros continuaram com práticas de auto-serviço e compensação excessiva. Os senhores de Wall Street esqueceram a missão da banca, que é fornecer suporte à economia.

O movimento pode não ter qualquer agenda para os jornais e televisoes, mas tem um objectivo: a Justiça económica.
OWS denuncia a injustiça e a corrupção da política pela finança, lobby e contribuinte das campanhas políticas, que paralisa o governo para o bem comum.

A amizade e o respeito demonstrado pelas pessoas em reuniões OWS mostram outra faceta do ser humano: temos uma sede de relacionamento profundo e autêntico.
Em protesto contra a expulsão de manifestantes pela polícia, os clérigos da Catedral de São Paulo, em Londres, demitiram-se.

O Arcebispo de Cantuária pediu um imposto sobre transacções financeiras, como tinha feito o Conselho Pontifício de Justiça e Paz, e condenou a excessiva remuneração dos executivos.

Talvez agora, incentivado pela voz pública, o governo possa enfrentar os interesses das empresas, e os cidadãos possam restaurar a justiça económica. Ou seja, um governo melhor e um mundo mais equitativo e sustentável.

O mundo — em especial a Europa — precisa de uma Economia com face humana, porque a Economia focada na eficiência e na maximização do rendimento, foi um fracasso e não legitimidade moral nem capacidade para vir impor as soluções para uma crise que ela causou.

Braga... porque ninguém ama o que não conhece

Tuesday, July 5, 2011

Falhanço do país engabinetado




Nas últimas semanas foi notícia o lamento de um empresário do interior do país que quer expandir a sua empresa mas não encontra gente para trabalhar.

Alguns virão já a corer a dizer que este empresário quer operários que trabalhem de graça ou paguem para trabalhar, mas sosseguem que não é o caso.

Não é o caso da Insercol, uma empresa da metalomecânica, em Moimenta da Beira, distrito de Viseu, que tem suspenso um investimento superior a milhão e meio de euros.

Por isso, o empresário João Guedes não aceita de bom grado a palavra crise porque “trabalho não falta”, o que falta “é gente para trabalhar”.

Esta empresa de referência na área da metalomecânica, tem um volume de negócios médio superior a quatro milhões de euros e registou no ano passado registado um crescimento de 30 por cento no volume de negócios e aumentou em mais de 20 por cento os recursos humanos.

Esta empresa quer investir “pelo menos” 1,5 milhões de euros em tecnologia de ponta e não sabe como fazê-lo, por não encontrar disponível mão de obra que permita a garantia da rentabilidade do investimento.

Quando Portugal vive momentos dramáticos com um desemprego medonho, ficamos intrigados por haver quem gosta de ter gente para trabalhar e não encontra, pagando ordenados que, em média, ultrapassam os 1.100 euros.

Metade dos trabalhadores vêm de fora de Moimenta de Beira e do distrito de Viseu, nomedamente de Aveiro e Porto.

Não basta construir auto-estradas para o interior agora, quando passamos décadas a estimular a desertificação do interior.
Está aqui o resultado de uma governação que durante séculos apenas lhou pel umbigo do país e desprezou os estímulos à maternidade.

Está aqui a prova de um plano nacional de formação profissional onde, depois de extinguir o ensino profissional, se gastaram milhões e milhões de euros do Fundo Social Europeu para dotar os jovens de cursos de papel, computador e lapis, esquecendo a agricultura e a indústria.

Num país que compra quase oitenta por cento do que come e enche os discursos com apoios à exportação, fica aqui um exemplo de uma empresa que precisa mais de operários do que incentivos para vender para fora.

Os planos de formação profissional engabinetados geraram um país com escassez de técnicos intermédios, a verdadeira alavanca que impedirá o falhanço desta Nação.

Há muito mais Portugal para além dos computadores.

Amartya Sen: um grito no deserto?



Na catadupa de notícias sobre PEC e crise da Líbia, um Doutoramento na Universidade de Coimbra, foi silenciado pela generalidade das televisões e só uma lhe deu direito a uma nota de rodapé, para contextualizar declarações do Alto-Comissário para os Refugiados das Nações Unidas.

É importante que se fale da situação da Líbia, mas é igualmente importante que se falasse do Doutoramento “Honoris Causa” do Prof. Amartya Sen.

Amartya Sen é um dos mais eminentes humanistas e cientistas da economia do Séc. XX e veremos se não o será também do séc. XXI, enquanto académico brilhante, comprometido com o Mundo.

Amartya Sen foi prémio Nobel da Economia em 1998 mas, mais importante são as razões que levaram à atribuição do prémio. Sen é na Academia quem, pelo seu pensamento, mais fez para a compreensão da pobreza, das desigualdades, do emprego e dos efeitos da sua existência para o exercício dos direitos humanos, da liberdade e da justiça.

Todas as suas obras constituem um marco, no avanço da ciência económica e do desenvolvimento humano. Para eles, os mercados não se auto regulam. Para terem um papel útil necessitam da intervenção da “política”. Como teve tanta razão na recente crise financeira! E no entanto, continua a ser desprezado.

O tão popularizado “Índice de Desenvolvimento Humano” tem origem nos trabalhos por ele promovidos no início dos anos 90: constituiu e constitui um critério que ainda não encontrou substituto, para avaliar o progresso humano, nos diferentes países.

Sen demonstra-nos que a ciência económica não é uma tecnocracia e ela só tem sentido se existir para dar resposta aos problemas de todas as pessoas e não apenas de algumas pessoas.

Como é possível? Só é possível num mundo que tenha a ética e a solidariedade como valores orientadores e não como valores subordinados.

Vale a pena incitar à leitura do seu livro “A Ideia de Justiça” (acabado de ser publicado em português). É que, na sua abordagem à justiça, marca um compasso ímpar para aqueles que lutam contra a injustiça por todo o mundo — comenta Philppe Van Parijs, da Universidade de Lovain

Sen demonstra toda a força do seu pensamento brilhante e juízo moral — acrescenta o Financial Times enquanto o Sunday Times afirma que este livro é “para quem gosta de discussões inteligentes longe de lugares comuns”.

O Jornal The Times define Sen como um dos grandes pensadores da nossa era.

Vejam o que estamos a perder, ignorando-o.